CRÔNICA DE MARIA FÉLIX FONTELE

CRÔNICA DE MARIA FÉLIX FONTELE


AS MULHERES E AS ESTAÇÕES (OUTONO)

A viúva, o Gênesis e a recriação do mundo interior 
Por Maria Félix Fontele*

    Difícil é recomeçar. Dar os primeiros passos em direção ao desconhecido, recriar a própria vida! A jovem Marlene Fontes encontrava-se justamente nessa posição, depois da viuvez prematura. O enfarto levara seu marido, após 18 anos de casamento. A tristeza a abatia, mas no olhar firme deixava transparecer certa compreensão sobre a efemeridade da existência. Pois o fim é nosso destino, embora ainda nos prostremos quando o raio de sol banha pela última vez a materialidade, esplendor da aparente solidez da experiência humana no planeta. 

     No velório, amparada pelos amigos, recebia condolências e conselhos, no sentido de que se recuperasse prontamente. No calor da emoção, pensei: o que poderei acrescentar, além de lhe dar um abraço? Para mim, nessas horas, o silêncio compreensivo conta mais. Olhei a paisagem ao redor. As árvores desfolhadas do cemitério davam o tom daquele momento solene, como se comungassem conosco, em nossa prodigiosa jornada, ora de declínio, ora de florescimento, em meio ao transcorrer inescapável do tempo.

   Naquele instante, pensei na poesia do Gênesis, primeiro livro da Bíblia e um dos cinco volumes do Pentateuco. Quem não se lembra da beleza desse texto: “No princípio, criou Deus os céus e a Terra. E a Terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo…”.  Tão poético que pesquisas recentes sugerem que o Gênesis, de autoria atribuída a Moisés, assimilou histórias mitológicas dos sumérios, dos babilônios e de poemas antigos, como o da narrativa do primeiro herói épico: o gigante Gilgamesh, meio deus, meio homem, e mortal. Eu acabara de ler a “Epopeia de Gilgamesh – A busca da imortalidade”, cuja aventura se passa no apogeu da civilização mesopotâmica, 3 mil anos antes de Cristo, quando deuses e homens conviviam, amavam-se e se odiavam. Ária sublime, preservada na argila em escrita cuneiforme.     Juntei a essas divagações, a seguinte questão: como refazer nosso mundo interior depois de decaídas? Teria Deus nos deixado a senha do ritual secreto de sua invenção? Claro que não sugeri leitura e filosofia à mulher enlutada, numa hora de imensa tristeza. Mas descobri que estava diante de força magnífica, vital e pura. Transcendental! Lembrei-me de que a cada dia de criação dos céus e da Terra, da separação da luz das trevas, das águas e da parte seca, da vida vegetal grande e pequena, das estrelas e dos corpos celestes, dos seres da água e da terra, Deus via que tudo aquilo era bom. Sua Criação era boa. O contraste era benigno! Então, voltei-me para a viúva e lhe disse: “Refaça sua vida com tudo aquilo que é bom para você”. Pareceu-me tão simplório, mas havia profunda verdade. Tanto que ela sorriu. Sorrimos! Nossas almas sorriram juntas. Bondade! Eis a palavra mágica, a senha! Bondade, em seu triunfo e totalidade.
* Maria Félix Fontele é jornalista e escritora

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